segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Aylton Thomaz, o desenhista brasileiro


O Brasil é um país miseravelmente sem memória. Mas isso, todos nós já estamos cansados de saber. Todo grande artista ou intelectual já deve ter dito isso algumas vezes por aí, mas não tenho medo de errar ao afirmar que, entre todas as classes artísticas nacionais, o desenhista é o que carrega a maior e mais pesada cruz quando se trata de reconhecimento.
É como se esse profissional fosse condenado ao anonimato e, por mais que seu trabalho faça sucesso, seja ele um grande caricaturista ou ilustrador, dificilmente um desenhista, mesmo no auge, é reconhecido nas ruas, e quando está aposentado é definitivamente esquecido. É claro que todos reconhecem o Ziraldo. Não tem Bienal do Livro que resista às intermináveis filas formadas por crianças e marmanjos em busca de um autógrafo do criador do Menino Maluquinho. Certa vez, o Ancelmo Góes disse que, se você quiser encontrar o Ziraldo numa dessas bienais, basta olhar do alto e procurar o estande com a maior fila. No final dela, estará lá, autografando seus livros, o cartunista mineiro de cabelos grisalhos. Mas o Ziraldo é uma raríssima exceção à regra. E isso nada tem a ver com talento. Ziraldo é como Pelé, um mistério a ser estudado pela ciência. De um modo geral, os desenhistas praticamente vivem no anonimato.
Comecei a organizar meus arquivos quando passei a estudar a história do desenho brasileiro entrevistando alguns dos nossos maiores mestres. Um dos primeiros artistas a me atender foi Aylton Thomaz, em julho de 1991. Depois, tive encontros com Nássara, Mendez, Quirino Campofiorito (que me atendeu na antiga redação do Jornal de Letras, em Copacabana), Augusto Rodrigues (que me apresentou suas pinturas no seu famoso estúdio no Largo do Boticário), José Geraldo, Carlos Chagas, entre outros. Alguns desses encontros geraram contatos posteriores e fortaleceram novas amizades, como no caso de Mendez e Aylton Thomaz.
Thomaz mantinha um estúdio montado num apartamento na Rua Joaquim Silva, na Lapa, Rio de Janeiro, imóvel que o artista comprou graças ao seu trabalho de escritor e educador, que gerou alguns livros pela Ediouro. Na época, gravei um depoimento sobre sua trajetória e fiz uma série de fotografias do artista em frente à sua prancheta. Nesse dia, ele nos contou que começou sua carreira aos 17 anos, quando trabalhou com Adolfo Aizen na Editora Brasil-América Ebal, pela qual arte-finalizava histórias em quadrinhos estrangeiras. Mais tarde, na mesma editora, passou a ilustrar clássicos de José de Alencar, entre outros autores consagrados. Trabalhou também com diversas agências de publicidade, até que passou a se dedicar à pintura. Voltei ao seu estúdio várias vezes e, quando realizei minha primeira exposição (no caso, uma exibição de caricaturas que retratavam Santos Dumont, em novembro de 1993, e que misturava desenhos de alguns dos meus alunos do Senac de Madureira com profissionais da qualidade de Guidacci, Mendez e Fortunato de Oliveira), enviei para ele um convite para a inauguração. Como Aylton Thomaz tinha para aquela data um compromisso já agendado, ele me telefonou para justificar sua ausência, sem deixar de me dar um puxão de orelhas: “Pôxa, Zé, como é que você organiza uma exposição e não me convida para participar? Da próxima vez, não esqueça do seu novo amigo!” Até hoje não me perdôo por ter dado essa bobeira. De fato, a exposição ganharia em qualidade com sua participação. Mas tive como me redimir um ano após, quando organizei outra exposição de caricaturas, desta vez num espaço ainda melhor, o Museu Nacional de Belas Artes, quando montamos a mostra “Imenso Cordão”, em homenagem ao cinquentenário do compositor Chico Buarque, em junho de 1994. Aylton Thomaz foi um dos primeiros artistas que incluí na lista dessa mostra coletiva. Assim que fechei todos os detalhes com o pessoal do MNBA, fui até seu estúdio para planejar a execução de seu trabalho. Durante os dias em que planejamos sua participação, Thomaz demonstrava bastante alegria e uma certa dose de nervosismo. Apesar de naquela época ser um pintor bastante conhecido nas galerias do Rio e em espaços culturais, Aylton Thomaz nunca havia participado de um evento naquele que era um de seus museus preferidos. O artista me confessou que seu sonho era poder expor seus quadros lá algum dia, e que essa primeira vez, mesmo numa coletiva, já valeria como uma grande exposição individual. Para homenagear o maior compositor da MPB, Aylton Thomaz pintou “O Anjo Tricolor do meu Rio”, onde se via um anjo tocando violão vestindo a camisa do Fluminense enquanto beijava uma mulata. Na cena víamos marinheiros, uma outra bela mulher e a paisagem ornamentada pelo Pão de Açúcar. O anjo, obviamente, tinha as feições do Chico Buarque. A exposição foi inaugurada e a única ausência sentida foi a do próprio Chico, que fugiu de todas as homenagens da época e se exilou em Paris. A exposição foi um sucesso de público e toda a imprensa deu considerável destaque ao evento. No dia seguinte à inauguração, Aylton Thomaz me ligou e entre muitos comentários me agradeceu por ter realizado seu sonho de poder expor no Museu Nacional de Belas Artes. Ao se despedir, arrematou um “Deus te abençoe!” e desligou. Infelizmente não o vi mais com a frequência que eu gostaria, mas alguns encontros casuais aconteceram ao longo dos anos. A última vez que o vi foi em frente à estação do metrô do Largo da Carioca, próximo à Avenida Rio Branco, onde Aylton Thomaz mantinha um ponto para vender seus quadros aos turistas. Nesse dia, contou ter descoberto que era diabético e que devido à doença já não enxergava como antes. Disse ainda que gostaria de se dedicar mais à atividade de escritor e que estava cheio de idéias para livros infanto-juvenis.
Nas últimas vezes que passei pelo Largo da Carioca, não o encontrei com seus quadros e cavaletes. Infelizmente, quando o procurei no seu antigo endereço ele não estava mais lá; havia deixado seu estúdio, alugando o apartamento da Joaquim Silva para poder manter em dia os impostos e o condomínio. Fiquei alguns anos sem saber notícias suas, e nem seus colegas do Largo da Carioca sabiam informar sobre o amigo.
Aí, volto à questão da memória infeliz e esclerosada do nosso país. Graças a ela, essa memória desmemoriada, Aylton Thomaz nos deixou no dia 10 de fevereiro passado em total anonimato, depois de longa internação no hospital Salgado Filho, no Méier. Faleceu em segredo. E não mereceu da nossa imprensa nenhuma nota. Nada saiu nos jornais e revistas. Nenhuma linha virtual na Internet, nenhuma voz nas rádios, nenhuma informação nos noticiários de TV. Absoluto silêncio dos meios de comunicação que Aylton Thomaz ajudou a construir, os mesmos que lhe dariam páginas inteiras se ele fosse um ex-BBB. Mas Aylton de Oliveira Thomaz não era uma celebridade. Era apenas e tão somente mais um desenhista brasileiro.

13 comentários:

Rose Araujo disse...

Pois é, Zé!
Triste realidade a nossa!
Mas é bom saber que ainda existem pessoas como vc para colocar esses assuntos em pauta.

bjos
:)

Máyra Nobre disse...

Poucos artistas, principalmente no Brasil têm reconhecimento enquanto vivos... triste realidade.

Bjão

SPACCA É... disse...

oi Zé,
não conhecia muito do trabalho do Thomaz. Só aqueles desenhos nos dois livros do jayme Cortez, A tecnica do Desenho e Ilustração. Neste último tem uma cena de favela cheia de personagens, e me inspirei no boteco para uma figuração na minha HQ "Jubiabá". parabéns pelo seu trabalho com memória, é muito valioso isso o que vc faz. Grande abraço, sp

Bira disse...

Zé!
É incrível...
Se não fosse por vc não saberíamos mesmo!
Cara, é só ver como a Imprensa trata os eventos ligados ao Humor deste país: de cara feia. Ou sem cara nenhuma...
Parabéns!

Adam Rabello disse...

Agora não está mais no anonimato Zé.
Impressionante como desvalorizam os ilustradores, cartunistas e caricaturistas do Brasil.

neilima disse...

Meu amiguim!
Fiquei muito triste em saber disso!
E eu que morava quase vizinho a ele e o via sempre lá naquele espaço do Metrô da Carioca expondo a sua arte pictórica e não me aproximava por minha timidez, perdi a oportunidade de conhecê-lo melhor!
Que bom que tem pessoas como você que se preocupam em enaltecer e tentar tornar esses seres especiais e abnegados, vivos na memória deste país miserável e obsecado pelo poder e pelo dinheiro através das falcatruas!
PARABÉNS POR ESTE SEU EMPENHO!!!

Ainda guardo com carinho, um de seus livros "Como Desenhar Bichos", editado pela Ediouro, que eu tinha a esperança de ter um autógrafo do artista...

JOSE AYRTON disse...

Goooooooooool de Placa. Parabens Zé Roberto, Me emocionei com o artigo sobre Aylton Thomaz. Vc me conhece bem, para entender esse comentário.Acredito que esteja na hora, já ultrapassada, da "Graúna" voar. Vc cada vez mais surpreendendo-nos. Agradeço á Deus, te-lo em meu rol de amigos. Que sua obra, versátil e inteligente possa ser reconhecida,cada vez mais, pois és respeitado no meio profissional,estimado por todos que com voce lidam e admirado pelos que consultam,lême assistem, suas produções, aulas e palestras.

DAYSE THOMAZ disse...

Olá Zé, meu nome é Dayse Luzia Thomaz, (31 anos) sou filha de Aylton Thomaz, Fui pesquisar algo na net sobre meu pai, e vi que você o conhecia, e falou muito bem dele,
É verdade..
Homem guerreiro que trabalhou a vida toda, fazendo seu desenhos, seus quadros,trazendo alegrias para nós, hoje esquecido..
Só eu sei o que eu passaei no ano passado 3 meses sofrendo naquele hospital , até ele partir.
hoje só resta as lembranças da sua arte, mais felizes as lembranças , do que não ter nada para lembrar.
Obrigado pelas palavras, um grande abraço. Dayse

Ricardo Dantas disse...

Penso que artistas nascem artistas e morrem artistas. Nada que ocorra fará de um artista um não artista. Anonimato é apenas uma condição e isso não tornará artista nenhum em nada, sempre será artista. O que vemos na tv e internet são celebridades com pouco ou nenhum talento, tendo como base "artistcia" a boa aparência que o tempo trata de ceifar. Aylton Thomaz foi um artista de mão cheia e talento grandioso. Cabe aos bons conhecedores da boa arte fazer este nome não ser esquecido ( respeitado ). Como o próprio e imortalizado artista disse em outrora: "...não escrevo para colegas, nem para gênios, nem para grandes artistas, escrevo para o grande público que sente as mesmas dificuldades que sentiu aquele garotinho, aquele adolescente cujos pensamentos da noites insones me recordo bem, porque aquele rapazinho...era eu.". Aylton Thomaz se foi como chegou , artista.

Zé Roberto Graúna disse...

Belo comentário, Ricardo Dantas!
Agradeço pela presença.
Grande abraço!

Julio Winck disse...

Para lembrar do grande Millôr Fernandes: Depois de bem ajustado o preço, a gente deve sempre trabalhar por amor à arte.

Maria Pilar Arantes disse...

Acho que um quadro que tenho de Don Quijote y Sancho, é dele. Está assinado Aylton Thomaz, mas como ganhei de minha mãe, que o comprou há mais de 25 anos atrás, já não sei se é deste Aylton de sua postagem.
Você tem o contato do Aylton?
Obrigada! Abs, Pilar

Chris Melo disse...

Sou sobrinha do Ayton Thomaz e as filhas possuem muitos quadros pintados por ele e não sabem o que fazer com tanta arte.
Será que vc não ajudaria?